​Programas de ACM Neto e Flávio Bolsonaro convergem e transformam direitos em negócios

  • 24/08/2026

​Programas de ACM Neto e Flávio Bolsonaro convergem e transformam direitos em negócios

Os programas de governo de ACM, candidato do União Brasil ao governo da Bahia, e Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL) à Presidência da República, convergem no núcleo econômico e colocam os dois no mesmo campo ideológico. Ambos defendem um Estado que recue da prestação direta de serviços e dos investimentos, mas continue forte para abrir mercados, conceder benefícios e transferir patrimônio e dinheiro públicos a grupos privados. Saúde, educação, saneamento, transporte e infraestrutura viram negócios abastecidos pelo Orçamento. O lucro é privado, mas o risco permanece público.


No programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral, ACM afirma que o governo “deixa de ser único executor. Bolsonaro escreve que o papel do Estado “não é ser o empresário” e quer “retomar o Programa Nacional de Desestatização”, conforme seu plano oficial. A embalagem é instagramável; o conteúdo, conhecido: entregar responsabilidades públicas à iniciativa privada.

Na saúde, ACM oferece o PIX Saúde: se a rede estadual não atender no prazo, o governo paga consultas, exames e cirurgias em hospitais privados. Flávio propõe contratar a capacidade ociosa das empresas. Na educação, acrescenta vouchers para escolas e creches particulares, enquanto o plano baiano amplia a presença de entidades empresariais na formação profissional. O particular recebe pacientes, alunos e dinheiro público sem assumir o dever de garantir atendimento universal. O PIX Saúde não apresenta custo, teto de pagamento, prazo máximo nem valor de referência, segundo levantamento da Agência Estado publicado pela imprensa.

O Pé na Escola mostra onde essa política pode chegar. Criado em 2018, durante a gestão ACM na Prefeitura de Salvador, o programa paga instituições privadas para suprir a escassez de vagas na educação infantil pública. Em abril de 2026, a prefeitura anulou todas as matrículas e contemplações do ano após encontrar indícios de “redução artificial” da oferta pública e movimentações que poderiam direcionar crianças à rede conveniada mesmo onde havia vagas municipais, conforme reportagem do Metro1. O Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar o caso. O incentivo perverso, porém, ficou exposto: quanto menos vagas públicas aparecem, mais dinheiro pode seguir para escolas particulares.

No transporte coletivo, a propaganda da eficiência empresarial acabou no colo da prefeitura. Em 2014, ACM concedeu por 25 anos os ônibus de Salvador a três grupos privados. Antes de completar seis anos, a Concessionária Salvador Norte entrou em colapso e sofreu intervenção. Em 2021, a gestão Bruno Reis rescindiu o contrato e assumiu as linhas. A auditoria encontrou R$ 516 milhões em dívidas e apenas 535 dos 700 ônibus previstos. A intervenção custava cerca de R$ 10 milhões mensais e, com os auxílios às demais operadoras, o município já havia colocado R$ 127 milhões no sistema, segundo o jornal Correio.

Enquanto ACM e Flávio vendem privatização como futuro, governos fazem o caminho de volta. Paris retomou o serviço de água em 2010 e calcula economia anual de 35 milhões de euros, sobretudo pelo fim da remuneração de acionistas e pela redução de custos, segundo a empresa pública Eau de Paris. Berlim recomprou as participações da RWE, em 2012, e da Veolia, em 2013, devolvendo a companhia de água ao controle municipal, como mostram os documentos do Senado berlinense. No Reino Unido, a lei de 2024 iniciou a devolução das operadoras ferroviárias ao setor público, processo que deve terminar em 2027, de acordo com o Departamento de Transportes britânico. O recuo é mundial. Estudo da Universidade de identificou 1.511 casos de remunicipalização ou criação de empresas públicas, sobretudo em água e energia.

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