Caiado evoca escravidão para pedir votos na Bahia e expõe o aliado escolhido por ACM Neto
- 27/07/2026
O ex-governador de Goiás e candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado, recorreu à linguagem racista da escravidão para pedir votos para si e para ACM Neto. Durante entrevista concedida em São Paulo, antes da convenção nacional do PSD, afirmou: “Com Caiado e ACM eleitos, o povo baiano vai se sentir alforriado”. Em um estado onde cerca de 80% da população é negra, a frase é uma agressão à história e à dignidade dos baianos.
“Alforria” não é sinônimo inocente de mudança política. Era o ato pelo qual o proprietário concedia liberdade à pessoa que mantinha escravizada. Ao se apresentar, ao lado de ACM Neto, como aquele que “alforriaria” a Bahia, Caiado reproduz a lógica colonial do senhor que se considera dono da liberdade dos outros. Não foi um episódio isolado: semanas antes, ele também havia prometido “alforriar” as favelas do Rio de Janeiro.
A escolha do termo se torna ainda mais repulsiva diante da história da própria família. A Agência Pública mostrou que os Caiado descendem de uma oligarquia de grandes proprietários rurais que manteve pessoas escravizadas em suas fazendas. Antônio José Caiado, antepassado do presidenciável, só alforriou os escravizados de seu latifúndio em 1887. Pesquisa acadêmica citada pela reportagem aponta que a adesão ao abolicionismo também atendia a interesses materiais e políticos dos proprietários.
O passado do clã também atravessa a Chacina do Duro, conflito iniciado em 1918 em São José do Duro, atual Dianópolis. O juiz Celso Calmon foi enviado à região por determinação do deputado Brasil Ramos Caiado, acompanhado por uma força policial. A operação terminou, em janeiro de 1919, com nove homens ligados à família Wolney mortos enquanto estavam presos. As execuções foram praticadas por policiais, mas a oligarquia Ramos Caiado estava no centro político da disputa que levou à chacina.
É esse personagem que ACM Neto escolheu para apoiar na disputa presidencial. O ex-prefeito reafirmou publicamente sua preferência por Caiado e foi citado pelo próprio aliado na frase ofensiva. Neto, portanto, não pode se apresentar como mero espectador nem tratar o episódio como um deslize alheio: o discurso foi pronunciado em nome de uma parceria eleitoral que pretende conquistar simultaneamente a Presidência da República e o Governo da Bahia.
ACM Neto tenta vender uma imagem de renovação e moderação, mas se alia a um herdeiro do coronelismo que utiliza o vocabulário dos senhores de escravizados para falar ao estado com a maior proporção de população negra do país. Quem aceita esse aliado aceita também responder politicamente por suas palavras. A Bahia não precisa ser “alforriada” por Caiado nem por ACM Neto. Não é propriedade de nenhum dos dois.
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